A cada ano, mais de 23 mil ocorrências de violência doméstica são registradas no Distrito Federal. Metade delas chega ao conhecimento das autoridades ainda no mesmo dia da agressão. Mas, para quem trabalha na ponta do sistema, esse número poderia ser maior, e mais eficaz, se houvesse um atendimento especializado desde o primeiro contato da vítima com a polícia.
Foi com esse diagnóstico que o Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal (Sinpol-DF) e a própria Polícia Civil (PCDF) se reuniram com a governadora Celina Leão, nessa quarta-feira (10/6), para apresentar uma proposta conjunta. O objetivo é ampliar a capacidade de resposta do Estado e, ao mesmo tempo, encorajar as mulheres a denunciar mais cedo.
A ideia central é simples, mas desafiadora, garantir que, logo após a agressão, a vítima encontre um atendimento preparado, integrado e com prioridade. A expectativa é que, com isso, aumentem as prisões em flagrante e a concessão de medidas protetivas ainda nas primeiras horas. Período que os especialistas consideram decisivo para romper o ciclo de violência.
Dados apresentados na reunião reforçam a urgência. Só no primeiro trimestre de 2026, a plataforma de denúncias anônimas da PCDF registrou alta de 40% nas comunicações sobre violência doméstica, na comparação com o mesmo período de 2025. Para os participantes, o crescimento mostra que a população está mais consciente, mas também expõe a necessidade de um sistema preparado para absorver essa demanda.
Participaram do encontro o presidente e o presidente eleito do Sinpol-DF, Enoque Venancio e Marlos Valle respectivamente, a diretora Dênia Coelho, o delegado-geral adjunto da PCDF, Saulo Ribeiro Lopes, e os secretários de Segurança Pública, Alexandre Patury, da Mulher, Jackeline Domingues de Aguiar, e de Desenvolvimento Social, Giselle Ferreira, além do consultor jurídico adjunto do GDF, Reinaldo Cosme Vilar.
Como próximo passo, Celina Leão anunciou que o GDF pretende formalizar a iniciativa por decreto. A governadora, no entanto, ressaltou que a viabilidade depende de previsão orçamentária. O tema será levado ao presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz, com a expectativa de conseguir recursos por emenda ainda neste ano e incluir a ação de forma definitiva na Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2027.
“Quando a vítima sabe que encontrará atendimento especializado e resposta rápida, ela se sente mais segura para denunciar. Isso aumenta a possibilidade de intervenção imediata, protege vidas e fortalece a capacidade do Estado de interromper ciclos de violência”, afirmou Marlos Valle, presidente eleito do Sinpol-DF.
A frase, dita ao final da reunião, resume o espírito da proposta, pois não se trata apenas de ampliar números, mas de transformar a primeira hora após a agressão em uma janela de proteção real.
